Criciúma (SC)
A doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Maria Aparecida Casagrande, apresentou uma tese de doutorado sobre feminicídio na região da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (Amesc). A pesquisa parte de uma trajetória profissional e acadêmica ligada aos direitos humanos e à análise das diferentes formas de violência que afetam a vida das mulheres.
Com 30 anos de atuação na Polícia Civil e experiência como professora da Academia de Polícia Civil (Acadepol), Maria Aparecida desenvolveu parte de sua carreira em contato com situações relacionadas à violência. Paralelamente, a atuação na educação ampliou o olhar sobre estratégias de enfrentamento que vão além da resposta penal. Professora de Direitos Humanos, ela afirma que o debate sobre os direitos das mulheres envolve questões de dignidade, proteção e transformação social.
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“A minha motivação por este tema teve início no dia 7 de setembro de 2020, quando tomei conhecimento de que uma mulher que eu conhecia havia sido morta pelo ex-companheiro, em sua residência, na cidade de Araranguá, simplesmente porque ele não aceitava a separação”, relata. “Desde então, passei a me questionar sobre a história de vida dessa vítima e sobre como poderia compreender o que aconteceu. Será que alguém havia falhado naquele contexto? Quais mecanismos de proteção poderiam ter sido acionados para evitar aquela morte? Qual é o lugar da educação no enfrentamento ao feminicídio?”, acrescenta.
Essas reflexões deram origem à tese intitulada “Educação e feminicídio: narrativas de ‘terceiras partes’, inquéritos policiais e contribuições da legislação no enfrentamento às violências de gênero (Amesc 2015–2020)”. O estudo analisou inquéritos policiais, registros escolares de seis casos e entrevistas com familiares e pessoas próximas às vítimas, buscando identificar fatores que podem dificultar respostas institucionais e a identificação de sinais de alerta.
Trajetória
Durante o desenvolvimento da pesquisa, a doutoranda também realizou um doutorado sanduíche de seis meses na Universidade de Coimbra, em Portugal, em 2024. A experiência ocorreu por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em parceria com a Unesc.
“Minha jornada acadêmica na Unesc foi gratificante. Recebi todo o suporte necessário, tanto nas disciplinas quanto no acompanhamento da minha orientadora. A experiência internacional ampliou meus horizontes teóricos e fortaleceu a análise crítica da pesquisa”, afirma.
Segundo a pesquisadora, o estudo também busca contribuir para políticas públicas de prevenção e enfrentamento à violência de gênero.
“Minha pesquisa oferece subsídios para políticas públicas de prevenção e enfrentamento à violência de gênero, com foco na capacitação de profissionais da educação, saúde, segurança e assistência social. Ela evidencia a urgência de capacitar educadores e operadores de segurança para abordar gênero, direitos humanos e equidade, transformando escolas e demais espaços da rede de atendimento em ambientes seguros e acolhedores para mulheres e meninas, atuando proativamente contra os sinais que anunciam o feminicídio”, afirma.
Orientadora da tese, a professora Giani Rabelo destaca o processo de desenvolvimento da pesquisa.
“Orientar essa tese foi uma experiência marcante, tanto no plano acadêmico quanto no humano. Ao longo do desenvolvimento da pesquisa, acompanhei o compromisso ético e crítico da orientanda ao analisar um tema sensível e urgente: a violência letal contra mulheres que resulta no feminicídio, em sua dimensão local e estrutural”, afirma.
Segundo a professora, a investigação também evidencia o papel das universidades na produção de conhecimento voltado à realidade regional.
“A partir dessa investigação, fica evidente que a contribuição dos pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesc, enquanto universidade comunitária engajada com a região do extremo sul catarinense, vai além da produção acadêmica. Ela se traduz em um compromisso com a promoção de práticas educativas, formação profissional e engajamento comunitário que fortalecem o enfrentamento da violência de gênero no território”, acrescenta.
Sobre a pesquisa
O estudo analisou casos de feminicídio registrados no extremo sul catarinense entre 2015 e 2020, com o objetivo de compreender a dinâmica desses crimes e as contribuições da legislação educacional e de outros dispositivos legais para a prevenção das violências de gênero.
Os resultados indicam que abordagens educativas fundamentadas em direitos humanos e equidade possuem potencial para promover mudanças culturais. A investigação identificou contextos recorrentes que antecedem os feminicídios, como conflitos relacionados a separações e ciúmes, além de diferentes modalidades do crime.
A pesquisa também aponta impactos que se estendem para além da vítima direta, especialmente sobre crianças e adolescentes afetados pela perda materna.
Os achados indicam ainda que os feminicídios costumam ser precedidos por sinais presentes em diferentes espaços da vida social, incluindo relações afetivas, ambiente familiar, trabalho e instituições de cuidado e proteção. Nesse contexto, a educação aparece como um espaço estratégico para a promoção de valores ligados à dignidade humana, ao respeito e à prevenção das violências.
O estudo também destaca a importância de ações integradas entre educação, legislação e políticas públicas, com investimento contínuo, articulação entre serviços e fortalecimento das redes de atenção às mulheres.
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