Documentário percorre países e mostra vida de Derlei De Luca

Criciúma (SC)

A força de Derlei Catarina De Luca atravessa as décadas com uma presença marcante que não se apaga. Há, em sua trajetória, a firmeza que não cedeu nem diante da violência, da ausência, ou diante do medo. É dessa essência que nasce “Derlei: Desafiando o Silêncio”, documentário cinebiográfico que transforma a memória em gesto e a experiência em reflexão.

O lançamento ocorrerá em três momentos: dia 21 de maio, na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Içara em sessão voltada aos familiares e convidados. Já no dia 22 de maio, a apresentação será no Auditório Ruy Hülse, da Unesc, a partir das 19h30, e posteriormente, no dia 25 de maio, na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc).

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Produzido pela Mozaiko Filmes, o filme conduz o espectador por uma jornada que ultrapassa a reconstrução histórica. Ao longo de 1h49min, ele atravessa 17 cidades do Brasil, Chile, Panamá e Cuba, acompanhando os caminhos que marcaram a vida da içarense.

No Brasil, as filmagens passaram por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. No exterior, a equipe percorreu Santiago, no Chile; Cidade do Panamá e Las Tablas; e concluiu as gravações em Havana, Cuba.

Com direção, edição e fotografia dos professores pesquisadores Alcides Goularti Filho e roteiro e produção de Giani Rabelo, o documentário constrói um retrato que equilibra densidade e delicadeza. A narrativa reúne entrevistas com familiares e companheiros de militância, além de trechos do livro “No Corpo e na Alma”, escrito pela própria Derlei.

“Derlei era uma pessoa solidária, humana, com compaixão pelo outro. Ao revisitar os lugares por onde ela passou, como museus, cidades, espaços de memória, a equipe buscou não apenas reconstruir acontecimentos, mas restituir atmosferas. Cada detalhe foi pensado de forma minuciosa, ratificando a ideia de que, como já defendia Glauber Rocha, não existe neutralidade no cinema”, comenta o diretor.

Conforme ele, esse material é resultado de um longo trabalho. “Nada no filme está por acaso, tudo foi pensado minuciosamente. Para nós, foi um grande aprendizado, tanto do ponto de vista técnico quanto da convivência e da experiência de filmar em diferentes cidades e países, especialmente em Cuba”, acrescenta Goularti Filho.

Durante 10 anos, 10 meses e 29 dias, ela enfrentou clandestinidade, prisão, tortura e exílio. Contudo, o filme não se ancora apenas nos impactos da ditadura militar, ao focar a dimensão humana que tem como protagonista uma mulher que escrevia poemas, cultivava afetos, sentia saudade e encontrava beleza em pequenos gestos e lugares.

“Contar a história de uma mulher que passou pelo que ela passou sempre esteve no nosso horizonte. Ela representa muitas outras mulheres que viveram a tortura. E o fato de ela ter seguido, de ter continuado militando, nos mobiliza”, comenta Giani, ao revelar que a escolha por Derlei não é recente.

Uma construção estética da memória

Inspirado por referências que vão do cinema soviético de Mikhail Kalatozov,  ao cinema italiano pós-neorrealista de Valério Zurlini e no Cinema Novo, o longa aposta em uma estética que valoriza o enquadramento, o silêncio e a contemplação. A fotografia simétrica, as cores vibrantes e as sombras presentes configuram uma linguagem que dialoga com a própria experiência de vida da personagem. Ao fundo, a filosofia existencialista sustenta a condução do filme e evidencia que o passado molda, mas é o presente que se ressignifica e projeta futuro.

O processo de produção, que se estendeu por dois anos, mobilizou mais de 30 profissionais e equipes locais em diferentes países. Em cada cidade, um novo encontro, uma nova adaptação e um novo desafio. No Panamá, por exemplo, a equipe enfrentou o desafio de viabilizar filmagens em uma pequena cidade do interior, em meio às incertezas logísticas. Ainda assim, o percurso seguiu, com registros realizados no cemitério de Las Tablas, no interior do país.

Uma história que permanece

Nascida em 1946, em Içara, Derlei Catarina De Luca construiu uma trajetória marcada por educação, militância e defesa dos direitos humanos. Professora desde muito jovem, ampliou sua atuação ao ingressar na universidade, onde intensificou o engajamento político. A partir de 1968, com o endurecimento do regime militar, sua vida passa a ser conduzida pela clandestinidade.

A prisão, em 1969, inaugura um dos capítulos mais duros de sua história. Submetida à tortura, Derlei carregou marcas físicas e psicológicas que a acompanharam por toda a vida. Ainda assim, a trajetória não se encerrou na dor. Após o exílio, vivido entre Chile, Panamá e Cuba, retornou ao Brasil com a anistia, em 1979, e retomou a atuação pública.

“O que a Derlei fazia, pelo que ela lutava, fizemos com muita facilidade atualmente. Será que a Derlei representava um perigo para a sociedade brasileira? O que ela fez de tão grave? Eram perguntas que fizemos para os entrevistados”, relata Alcides.

Ele recorda que a proposta sempre foi imprimir beleza ao documentário, não uma beleza superficial, mas aquela que nasce do olhar e da experiência. “Ela percorreu todos os lugares retratados e que agora ganham novos significados na narrativa. Ao retornar a esses espaços, o filme reconstrói memórias e revela as camadas de sentido que ela enxergava no mundo”.

Na Alesc, onde permaneceu até 2017, sustentou um trabalho contínuo voltado à memória, verdade e justiça. Participou da Comissão da Verdade e se envolveu na busca por desaparecidos políticos. Ela faleceu em 18 de novembro de 2017. “Ela nunca se colocou como vítima. Reconhecia o sofrimento, mas ressignificava a experiência e seguia”, observou Giani.

Memórias

Derlei Catarina De Luca construiu uma trajetória marcada por coragem, resistência e compromisso inabalável com a justiça. Perseguida pela ditadura militar, presa e brutalmente torturada, enfrentou o exílio e a dor profunda de permanecer afastada do próprio filho por anos, sem jamais renunciar aos seus ideais.

Sua vida foi atravessada pela repressão, pela clandestinidade e pelas perdas impostas por um regime autoritário, mas também pela firmeza de quem transformou o sofrimento em luta. Ao retornar ao Brasil com a anistia, retomou sua atuação com ainda mais determinação, engajando-se na defesa da democratização do país, na preservação da memória e na busca pela verdade e reparação para as vítimas da ditadura.

Dedicou-se intensamente à localização dos corpos de presos políticos e teve papel ativo na Comissão Nacional da Verdade, reafirmando, até o fim de sua vida, seu compromisso com os direitos humanos. Professora, militante e testemunha viva de um dos períodos mais sombrios da história brasileira, Derlei foi, acima de tudo, uma mulher que jamais desistiu de lutar. Ela foi muito importante na Comissão da Verdade. Mesmo depois de ficar livre, seguiu lutando e é reconhecida em diversos locais.

Reflexão

Alcides conta ainda que a trajetória de Derlei é uma verdadeira declaração de amor à democracia e à justiça social, valores que ela carregava com clareza, traduzidos em gestos de solidariedade, humanidade e profunda compaixão pelo próximo. “Histórias como a dela nos lembram da importância de valorizar o que é nosso, sem esperar que grandes plataformas de streaming contem aquilo que nasce e pulsa em nossa própria região”, refletiu o diretor.

“Esperamos que esta cinebiografia faça com que nós, enquanto sociedade, brasileira e regional, refletimos sobre o quão nefasta foi a ditadura civil militar neste país e quantas pessoa perderam a vida muito jovens, mas o quanto foi importante a atuação de tantas “Derleis”, pessoas que se envolveram e abriram mão de tudo. É pensar sobre o quão danoso e desnecessário foi a ditadura no nosso país. Não precisávamos ter passado por isso. Precisamos falar disso para que não aconteça mais. A ideia é registrar, deixar esta memória porque faz parte de nossa história e precisa ser revisitada em todos os momentos para não desaparecer. Esta geração precisa disso”, ressaltou Giani.

Datas do lançamento da cinebiografia de Derlei Catarina De Luca:

21/5 – Apae, Içara, às 19h30 – para familiares e convidados

22/5 – Auditório Ruy Hülse (Unesc), Criciúma, às 19h30. Aberto à comunidade.

25/5 – Alesc / Plenário Paulo Stuart Wright, Florianópolis, às 19h. Aberto à comunidade.

Cronologia – Derlei Catarina De Luca

Nascida em 17 de setembro de 1946, em Içara (SC), Derlei Catarina De Luca foi filha de Silvino De Luca e Maria Rizzieri De Luca. Faleceu em 18 de novembro de 2017.

Passou a infância e a adolescência em sua cidade natal, onde estudou até o 4º ano no Grupo Escolar Antônio João. Em 1964, concluiu o curso Normal Regional no Colégio Michel. Ainda jovem, iniciou sua trajetória no magistério: em 1962, ingressou no Colégio Cristo Rei de Içara, tornando-se sua primeira professora. Em 1964, passou a atuar no Grupo Escolar Antônio João.

Em 1966, mudou-se para Florianópolis para cursar Pedagogia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nesse período, intensificou sua atuação política e estudantil, militando na Juventude Universitária Católica, no Centro Acadêmico de Pedagogia e no Diretório Central dos Estudantes (DCE). Posteriormente, ingressou na Ação Popular (AP).

Em 12 de outubro de 1968, foi presa durante o Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), sendo liberada em seguida. Voltou a ser detida em 5 de dezembro do mesmo ano, em Florianópolis, também sendo solta pouco depois. Com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, entrou na clandestinidade. Permaneceu afastada do país até 10 de dezembro de 1979, período que totaliza 10 anos, 10 meses e 29 dias.

No final de 1968, foi deslocada para o Paraná, onde permaneceu inicialmente no litoral. Em janeiro de 1969, seguiu para Curitiba, trabalhando em uma fábrica têxtil como agente da AP, com o objetivo de conscientizar operárias e fomentar a organização sindical. Em maio do mesmo ano, foi enviada a São Paulo para atividades internas da organização.

Em 23 de novembro de 1969, foi presa pela Operação Bandeirante (Oban). Submetida a sessões de tortura por três dias consecutivos, entrou em coma e foi internada no Hospital Militar por 13 dias. Em seguida, retornou ao DOPS, onde sofreu novas torturas por mais 14 dias. Permaneceu presa até o início de março de 1970.

Após a libertação, retornou a Içara, onde permaneceu por dois dias com a família. Em seguida, foi levada para o município de Antônio Carlos (SC), onde recebeu cuidados no Seminário Preparatório, com acompanhamento médico. Em 27 de março de 1970, chegou a Salvador (BA) para retomar suas atividades na AP. No mesmo dia, conheceu Nilo Cesar Sobra Ramos, com quem se casou e teve seu único filho.

Em outubro de 1971, grávida, mudou-se para Feira de Santana (BA), onde oficializou o casamento e passou a utilizar o nome Maria Luiza Borges Vitali. Diante da perseguição policial, o casal fugiu da cidade. Em dezembro de 1971, seguiram para Londrina (PR), onde, em 11 de janeiro de 1972, nasceu seu filho, José Paulo De Luca Ramos.

Em 18 de abril de 1972, a polícia militar invadiu sua residência à procura de Derlei. Como estava registrada com outro nome, não foi identificada, mas seu marido foi preso. Ela fugiu com o filho e, em meio à perseguição, deixou a criança sob cuidados de Joana D’Arc Bizzotto Lopes, seguindo para Cambé (PR), onde foi acolhida por um médico. Em estado de saúde debilitado, recebeu cuidados e foi encaminhada ao Rio de Janeiro.

Chegou ao Rio em 30 de abril de 1972, passando a trabalhar como babá, sem contato com o filho e o marido. Posteriormente, foi localizada pela família, que organizou seu retorno a Santa Catarina, em 2 de novembro de 1972.

Após um período de recuperação em Joinville, permaneceu escondida entre janeiro e março de 1973, na Praia da Pinheira (SC), onde reencontrou o filho e o companheiro. Devido a questões de segurança, foi levada ao Rio Grande do Sul e, posteriormente, a São Paulo. Nesse período, rompeu com Cesar Ramos e viu sua organização política desarticulada.

Diante desse cenário, decidiu exilar-se. Em 24 de junho de 1973, partiu para o Chile, então governado por Salvador Allende, utilizando documentos de sua irmã. Permaneceu no país por 125 dias, até o golpe militar de 11 de setembro de 1973. Refugiou-se na Embaixada do Panamá, em Santiago, onde cerca de 260 pessoas dividiram um espaço reduzido.

Na mesma data do golpe, sua mãe e irmã chegaram ao Chile com seu filho, mas, diante da situação, foram obrigadas a retornar ao Brasil. Derlei teve apenas um breve encontro com a criança. Em 27 de outubro de 1973, foi transferida, junto a outros refugiados, para o Panamá, onde permaneceu por curto período, antes de decidir seguir para Cuba, e para a cidade de Las Tablas, no interior do país, onde fez uma grande reflexão de como seguir o caminho.

Em 20 de novembro de 1973, chegou a Havana. Seu filho, após passar por diferentes cidades brasileiras sob proteção de familiares e apoiadores, conseguiu, em julho de 1974, chegar a Cuba, onde reencontrou a mãe após dois anos de separação.

Em Cuba, mãe e filho viveram inicialmente em Havana e, posteriormente, em Santiago de Cuba, onde receberam moradia do governo. Derlei concluiu o curso de História na Universidade do Oriente e atuou como professora do ensino secundário. Permaneceram no país por seis anos.

Com a anistia, retornaram ao Brasil em novembro de 1979, desembarcando em São Paulo no dia 10 e em Florianópolis no dia 12, seguindo, na mesma data, para Içara.

No período pós-1979, Derlei manteve atuação constante na luta pela memória, verdade e justiça, dedicando-se à busca por mortos e desaparecidos da ditadura militar e participando ativamente da Comissão da Verdade.

Ingressou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em 5 de março de 1980, onde permaneceu até 2017. Atuou como assessora da APAE de Içara entre 1982 e 1995 e como professora do Colégio Padrão no mesmo período, além de lecionar nos colégios São Bento e Marista.

Também ocupou a cadeira número 1 da Academia Criciumense de Letras, consolidando uma trajetória marcada pela educação, militância política e defesa dos direitos humanos.

 


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