Da Redação | Criciúma (SC)
Fazer ciência é colocar o conhecimento à disposição da sociedade e, melhor ainda, transformar problemas em soluções. Na Unesc, desde 2021, pesquisadores se dedicam ao aprimoramento do diagnóstico da sífilis, e os resultados desse trabalho hoje são significativos e promissores.
A pesquisa integra os estudos do Laboratório de Fisiopatologia Experimental e do grupo de pesquisa em Biotecnologia (Biotech), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Universidade. O interesse pelo aprimoramento do diagnóstico de sífilis nasceu de uma parceria com a Universidade de Rio Verde. A Unesc recebia uma doutoranda da instituição goiana e foi por meio dela, atuante na área da medicina, que surgiu a temática que despertou o interesse do grupo, consolidando-se como uma das linhas de investigação do laboratório, que já tinha experiência relacionada ao assunto.
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O cenário nacional, de acordo com dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2025, mostra que a doença, descrita como uma infecção bacteriana de transmissão sexual, passível de prevenção e com tratamento disponível e eficaz, tem na região das Américas a maior incidência global atualmente, com aproximadamente 3,37 milhões de registros, o que corresponde a 42% das novas infecções notificadas em todo o mundo.
Neste contexto, o professor coordenador do Laboratório, Ricardo Andrez Machado de Ávila, afirma que um dos desafios está na identificação correta dos casos. “O diagnóstico de sífilis é muito difícil, pois às vezes a pessoa já está tratada e continua com testes positivos e, além disso, muitos casos são assintomáticos. São situações complexas e o volume de casos é cada vez maior, principalmente em jovens”, explica.
Ao identificar a necessidade de aprimorar os testes em uso no mercado, a estudante de pós-doutorado do Biotech, Rahisa Scussel, relembra que o grupo passou a se dedicar a contribuir cientificamente para mudar essa realidade e, assim, colaborar para um melhor desfecho nos casos. “Nossa ideia foi utilizar a expertise do grupo em analisar a estrutura de proteínas de diversos agentes etiológicos e voltar essa atenção à sífilis”, comenta.
Após intenso trabalho de construção e análise de um banco de amostras sorológicas, com uso de softwares, banco de dados e estudos em artigos científicos, feito em equipe com participação de estudantes de iniciação científica na graduação, mestrado e doutorado, a atuação se voltou à síntese química de moléculas em laboratório e a ensaios que indicariam se a equipe estava no caminho certo.
“Já conseguimos validar uma ferramenta bem efetiva, capaz de identificar pacientes com sífilis em diferentes estágios da doença e ainda monitorar de forma mais específica a eficácia do tratamento, superando limitações dos testes atualmente disponíveis”, explica Rahisa.
Com o resultado, segundo Ricardo, foi possível diferenciar de forma efetiva os casos de pessoas tratadas e não tratadas, assim como as diferentes fases da doença.
“Publicamos um artigo recentemente identificando moléculas para uso no diagnóstico, o que também foi patenteado pela Universidade. Atualmente, essas moléculas estão sendo testadas para uso em testes rápidos, com dois estudantes na Inglaterra com foco nessa questão”, contextualiza o professor, que destaca ainda que uma máquina dedicada à produção dos testes rápidos foi adquirida por meio de recursos voltados à pesquisa e será peça-chave nos próximos passos dos estudos.
Crescimento em paralelo: pesquisa e pesquisadora
Quem participou de todo o processo e pôde vivenciar de perto o desenvolvimento de cada etapa do estudo científico foi a então acadêmica de iniciação científica Letícia Alves Borghezan, graduanda em Biomedicina e colaboradora do laboratório desde o início do curso. Junto das análises e dos avanços dos resultados, a estudante acumulou amadurecimento profissional e pessoal.
Com o assunto como foco do Trabalho de Conclusão de Curso, ao identificar moléculas presentes no processo de infecção da doença e com potencial para aplicação em um teste-diagnóstico de sífilis, Letícia contribuiu com etapas importantes dessa construção coletiva e, agora como mestranda, segue atuante nas próximas fases da pesquisa.
“Quando cheguei, acompanhei ainda a escrita do planejamento daquilo que seria feito, passando pela identificação das proteínas no computador, in silico, e depois trazer essas moléculas para a forma real, com a síntese dos peptídeos, a forma como trazemos essas moléculas identificadas de forma física e aplicá-las em teste diagnóstico”, descreve.
Para ela, cada dia de laboratório vale a pena por fazer parte de algo grandioso. “Essa fase, mesmo inicial, é muito importante para a ciência em si. É a partir desses processos de base que é possível desenvolver estudos maiores. A partir do entendimento de como funciona o processo biológico de infecção da doença é que se torna possível ter estudos mais robustos e aplicações clínicas mais relevantes”, acrescenta a mestranda.
Novo desafio: sífilis congênita
Após a primeira etapa da pesquisa, que já resultou em um TCC, uma tese de doutorado, um artigo publicado e uma patente, o grupo tem outra missão. Os pesquisadores seguem agora com um trabalho de continuidade, buscando o diagnóstico da doença em bebês, nos casos de sífilis congênita.
Conforme o pesquisador Ricardo Andrez, esse problema de saúde pública, que entre 2012 e 2022 teve 238 mil casos identificados e 2 mil óbitos no Brasil, tem no diagnóstico neonatal ainda um grande desafio, especialmente em casos assintomáticos.
A equipe contará também, nesse processo, com a atuação da mestranda Lidiane Anastácio Cruz. “Vamos ampliar o estudo, voltando para a sífilis congênita, para conseguir diagnosticar o recém-nascido, se realmente ele tem sífilis ou se apenas recebeu, através da placenta, os anticorpos da mãe. Hoje, sem essa possibilidade, muitos bebês são liberados do hospital com um diagnóstico de falso negativo e acabam desenvolvendo sequelas futuramente, como cegueira, surdez e problemas neurológicos”, pontua.
De acordo com Lidiane, ao refinar os dados, o grupo busca diagnosticar as proteínas que caracterizam infecções recentes e as que representam memória imunológica, conhecidas como IgG e IgM, tornando os resultados mais específicos. “Pretendemos tornar isso um produto real em teste rápido, para que possa ser usado em todo o âmbito da saúde pública, em hospitais e campanhas, sem precisar de um laboratório ou equipamento mais completo para análise”, contextualiza a pesquisadora.
Ela resume o sentimento da equipe em participar de um projeto de tamanho propósito. “É um sentimento de gratidão acompanhar o desenvolvimento do projeto desde o início, poder torná-lo um produto físico que vai ajudar as pessoas, a população, trazer resultados reais é bastante gratificante”, acrescenta.
Presente e futuro
Para que as tecnologias cheguem aos postos de saúde e beneficiem os pacientes na prática, ainda é preciso trilhar alguns caminhos.
No caso da pesquisa voltada ao desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e à transformação em testes rápidos, a situação já está mais avançada. Nesse quesito, o Nível de Maturidade Tecnológica, chamado TRL (Technology Readiness Level), já está entre 4 e 6, número que mostra avanço acima do esperado.
“Nesses casos, uma empresa pode se interessar e comprar a patente, dando sequência aos testes e depois criando um produto final. É algo que entra no campo de negociação e transferência de tecnologia. De nossa parte, seguiremos para a etapa de aumento do banco de soros e análises mais abrangentes, assim como trabalhando no desenvolvimento do teste rápido com a máquina que conquistamos por meio da pesquisa, envolvendo os estudantes que estão aqui e os dois que estão no exterior, com o objetivo de trazer experiências para esse processo”, contextualiza Ricardo.
Na pesquisa voltada à sífilis congênita, o trabalho ganha fôlego a partir da integração ao Programa Pesquisa para o SUS, iniciativa do Ministério da Saúde que financia o estudo de soluções que podem contribuir na prática para o Sistema e que, nesta edição, teve o projeto da Unesc aprovado.
Os pesquisadores seguirão atuando no projeto com a perspectiva de ampliar a capacidade do SUS em identificar infecções neonatais precocemente, além de reduzir sequelas a longo prazo por meio de tratamento oportuno.
Conheça o trabalho completo
O trabalho do grupo foi publicado pela revista ACS Infectious Diseases e pode ser acessado aqui: https://l1nq.com/zolzlr4.
Confira matéria completa produzida para a Unesc TV: https://www.youtube.com/watch?v=lEbIi8z9COk.
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